terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sonhos





Sonhei. Entretanto, não sonhei como quem simplesmente fantasia algo, quem pinta algo no véu da noite, quem cria historietas em sacos de pão. Sonhei como se houvesse doado todo o meu sangue para estar naquela situação. Sonhei como se houvesse vivenciado aquele momento, carne-e-ossamente, sem incluir nem excluir uma vírgula sequer.
Sonhei. E sonhei que havia, em um lugar qualquer, uma sala gigantesca de onde despontavam brancas mesas redondas e suas respectivas cadeiras. Unicamente como se fossem margaridas que brilhassem com maior esplendor, despontando em campos floridos. Envolvendo tais móveis, havia pessoas. E essas criaturas prestavam atenção em algo, ainda que muitas delas caçoassem de sabe-se lá o quê, ou que gargalhassem farfalhando seus risos.
No mundo onírico, os sonhos são a única coisa que existe fielmente. As vivências dos sonhos, para muitos, são acontecimentos que ocorrem além-Terra, além-túmulo. E nas minhas veias borbulhava um quê de bem estar e um misto de curiosidade por esperar que algo pudesse acontecer sem que eu soubesse de que se trataria. Eu também esperava, apreensivo, sentado numa das cadeiras, junto a dois ou três gargalhantes, sendo que um deles era mais afobado e, portanto, chamava-me mais a atenção.
Circundavam-nos paredes róseas, fofas como gelatinas de morango, mas de coloração opaca, laticiniamente apetitosas. À frente, um enorme telão acinzentado surgia, assemelhando-se a um lençol que é estirado num varal, à espera da secagem total, num domingo matutino. Mas, como tudo que pertence ao universo fantástico dos sonhos é extremamente alheio aos padrões terrenos de normalidade, assim também o era o telão. Cinza, sim. Porém, possuía um reflexo mágico. Lembrava a face de uma televisão que há muito não é utilizada, por sua fina camada nostálgica de poeira.
Vendo que muito me incomodava a presença daqueles seres babosos que não paravam de caçoar o nada sem motivo aparente, retirei-me de perto dos desconhecidos e dirigi-me à mesa primeira, defronte ao quadro cinza. Rumando em meu destino traçado, tocava as cadeiras e muitas delas se coloriam de um azul bem semelhante ao do céu num dia de inverno. Eu apreciava o poder que possuía meus dedos que, até então, considerava singelos. Eu era um pintor que armazenava tinta na ponta dos dedos! Assim como uma pedra que rasga a película de um lago, reverberando ondulações, meus dedos pintavam as cadeiras e, a cada movimento das vagas, as cadeiras pintavam-se cada vez mais, paulatinamente. Era a minha alma expurgando os poros do salão com o meu livre contentamento azul.
Sentei-me à mesa. Amigos e colegas me cumprimentaram, visivelmente contentes de me encontrarem. Como os avós que encontram, no paraíso, o neto que faleceu. Sorri e esperei. Sobre a base, folhas de papel se amontoavam, em pilhas individuais. Questionava-me sobre o porquê de tal quantidade excessiva de folhas, mas algo logo respondeu ao meu questionamento.
Repentinamente, as folhas começaram a flutuar. Recordei-me do pássaro de penugem nova, que está aprendendo a voar, com muita calma e delicadeza. Às vezes meio capenga, movendo-se desesperadamente; outras vezes contendo-se e batendo asas com graciosidade.
Situação fantástica! Como poderia uma folha valsar entre o ar sem motor que o autentique? Como papel branco poderia ricochetear nas nuvens sem que uma força lhe impulsionasse? Magia ou cética sensaboria? Força do pensamento ou vastidão de lamentos?
Uma das minhas companheiras, vendo meu sorriso de cão apreciador de frango de padaria, sussurrou-me uma frase que me fez espantar, encantando-me. Chegou perto do meu ouvido e, pondo a mão em concha ao seu derredor, disse: “São espíritos”.
Ajeitei-me na cadeira, sem entender a exatidão de suas palavras. Àquela altura, a sala toda estava repleta de folhas brancas a bailar suas alegrias e esvoaçando o mundo com sua magnificência. Como o desconhecido desperta medos, comigo não foi diferente. Mas o medo era repleto de uma sagacidade aliviadora.
Apontou-me a tela cinzenta de reflexos fantásticos. Num segundo plano, os espíritos brincavam como crianças com bexigas coloridas. Puxavam as folhas, cujas consistências rememberavam-me véus de noivas, de tão diáfanos que eram. Para nós, que víamos o concreto, folhas de papéis possuíam vida! Para eles, era um brincar de esparramar confetes.
Assistia, absorto, os movimentos dos espíritos, pela sala. Não eram unicamente almas como nós, com aspecto físico semelhante aos nossos. Pareciam os gigantescos bonecos de Olinda, que, no carnaval, espalham a música entre os foliões. Altos e magricelos, os espíritos tinham a pele muito alva, os cabelos mui longos e uma altura considerável de aproximadamente três metros. Vestiam roupas brancas e extremamente diáfanas, que eu via dançar em seus vôos libertos da carne. Levavam coroas de papel maiores que o diâmetro de suas cabeças. Vez ou outra, elas faziam estardalhaço em seus cabelos e eu os via ajeitando-as.
Num literal piscar de olhos, encontrava-me levitando em uma sala repleta de escadas. As paredes eram almofadadas, como em uma solitária, mas recheadas de completo conforto. Eu flutuava assim como os espíritos faziam. Sentia-me como mergulhando em alto mar, com minhas roupas todas secas, entretanto. Os colegas das minhas mesas se encontravam cada um em um degrau da escada, com as mesmas roupas dos espíritos, adequadas aos seus tamanhos. Eles cantavam, em uníssono, uma cantiga-de-roda. Os espíritos, com seus ares serenos, me viam reverberar pelo cubículo. Eu possuía asas invisíveis, qual anjos renascentistas, e sentia todos os raios solares penetrando o meu ser, sentia as estrelas subindo-me os sonhos, sentia os meus dedos tocando o mão acolhedora de Deus!
Dos sonhos eu desperto e a realidade é mais cinza que o telão da saleta. O horário cintila e a vida renasce a cada despertar. Dou-me um banho acolhedor, como o filho no útero da mãe. Ressuscito os problemas diários, esperando os sonhos se revelarem em momentos extraordinários.
É assim que, na tela cinza da vida, há reflexos inimagináveis que fingimos não ver, mas que estão lá, prestes a serem observados com atenção. Quando atentos, a tela cinza da nossa existência se colore de branco, feito as vestimentas dos amigos; de azul, feito as cadeiras de nossas alegrias; de rosa, feito as paredes do sustentáculo eterno, como uma flor que desabrocha no sem-fim das galáxias.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Conversa



A menina entrou com sua mãe na sala-de-espera do consultório médico. Tinha a segunda febres intermináveis, vômitos entre poucos intervalos de tempo, os olhos doíam, a sua aparência era de uma quase-cadáver. A menina a seguia de perto, com uma certa impressão de quem preferiria ter ficado em casa, brincando com suas bonecas, assim como fazem todas as meninas de sua pouca idade.
A mãe se dirigiu à secretária da sala para que pudesse finalmente confirmar sua presença, enquanto a menina se dirigia ao outro lado da sala para sentar-se no sofá e esperar pela consulta da mãe.
Foi então que seus olhos infantis enxergaram num dos quatro cantos da sala um menino. Quieto, cabisbaixo, sentado no chão, o rosto encoberto pelas mãos. A menina o olhou timidamente e desviou seus olhos à outra senhora que se encontrava sentada em outro sofá. Olhava para a senhora e olhava para o menino, como se afirmasse ser a mulher a mãe do garoto.
Sua mãe, febril, sentou-se ao lado de sua filha e sussurrou-lhe “enquanto eu converso com o médico, você fica aqui, me esperando”. A menina pouco lhe dava atenção, apesar de haver entendido perfeitamente o que sua genitora havia dito.
Enquanto a mãe folheava a revista, a menina ficava encostada em seu braço, ou olhando as coloridas figuras da revista ou admirando o menino que continuava sentado no chão.
Finalmente, a mãe foi chamada à consulta. A menina continuava a apreciar o menino. Subitamente, após a entrada da mãe na saleta do médico, a menina levantou-se do sofá e dirigiu-se ao menino no chão.
Seus passos lentos mal acompanhavam os olhos, que ficavam vidrados na posição imutável do outro. A secretária curiosamente observava o que estava por vir e o jeito com que se dirigia a menina dos pequeninos cachinhos ruivos.
A menina aproximou-se, acocorou-se no chão com as mãos juntas entre as pernas baixas e, com suas palavras tímidas, começou a dialogar com o menino:
— Por que é que você está aí?
A resposta não lhe foi dada. O silêncio bem era a norma principal de sua futura conversação.
— Você está triste, menino? – e perguntou novamente a garota, com a resposta preste a ser expelida.
A secretária olhou a cena com compaixão e admirou o ato cordial daquela linda menina de apenas seis anos. Continuou calada, esperando pelo próximo gesto da garotinha.
— Você não quer conversar comigo?
A criança continuava quieta. Nada dizia, nada expressava. As feições eram as mesmas. Apáticas.
A menina, então, dirigiu-se à mesa do centro da sala e tomou uma das revistas, levando-a, logo após, ao menino, que continuava sem dizer frase alguma.
— Vamos ver esses desenhos aqui. Vem ver a revista comigo, menino.
Ele continuava calado e essa sua indiferença estava vagarosamente deixando a garota aparvalhada e impaciente.
— Você está triste? – repetiu-lhe a pergunta.
— Garotinha, está tudo bem com você? – perguntou a secretária, intrometendo-se, preocupada com a atuação da menina.
Ela não lhe deu a mínima atenção e continuou com sua tentativa receosa de conversar com o tímido menino. O mundo em que ela vivia parecia ter sido apagado de sua mente, importando-lhe apenas a situação em que estava envolvida.
— Vou sentar aqui do seu lado, tá? – e recebeu um sonoro silêncio.
Sentou-se e já continuou com seus questionamentos:
— Quer brincar de pego-dedo-pega-nada?
A esta altura, a secretária já estava apreensiva, juntamente com a outra senhora, a princípio creditada como sendo a mãe do acanhado menino.
— Mas por que é que você não fala nada? Tem medo de mim?
O menino parecia estar divertindo-se com a vontade mal-sucedida da menina em trocar algumas palavras com ele. Todavia, continuava calado, quieto, tímido, acanhado, imóvel, silencioso.
— Vamos sentar no sofá, menino. Este chão está muito gelado.
Após dois passos, a menina se recordou da imobilidade do menino e voltou para ajudá-lo a se levantar.
— Vem, eu te ajudo.
Colocou as mãos no braço do menino e puxou-o veementemente, porém ele insistia em ficar na mesma posição de outrora. A senhora e a secretária apenas olhavam com uma certa preocupação, mas, ao mesmo tempo, estavam com a curiosidade sedenta por uma atuação maior. — Vem, menino!
E aplicou maior força no puxão de seus braços. Porém, era impossível fazer com que o garoto reagisse de algum modo. Ele continuava quieto. Quieto e insuportável.
— Por que você não fala, não vem comigo, não faz nada? Que foi que te aconteceu, menino? – foram as frases ditas pela menina nos instantes em que sua força já era quase finda e sua raiva começava a transbordar do copo da paciência.
As lágrimas começaram a verter. Quanto maior força imprimia no braço do menino, mais força – e apatia – ele demonstrava para ficar calado em seu canto, sem que ninguém o perturbasse.
O choro já era o princípio do caos, e este uma ordem por decifrar. A ordem estava intacta no mundo fora do da menina. A decifração, sendo devorada pelos olhares da secretária e da senhora, mesmo sem ter uma resposta concreta do que ocorria.
Neste exato instante, em que ninguém entendia patavinas do que ocorria, a mãe abriu a porta da sala do médico e nada entendeu quando viu sua rebenta chorando e fazendo força para fazer o moleque levantar-se. As tentativas de interagir com o menino eram à mãe um tanto estranhas e outro tanto impossíveis de serem identificadas.
— Filha, o que você está fazendo? – pôs-se a questionar a mãe aos olhos da secretária e da senhora.
Num estado de indagação absoluta, a mãe abraçou a filha e tentou desesperadamente fazer com que ela soltasse o braço do menino, que se tornava cada vez mais resistente e, apático, ainda mais.

A menina, aos berros, expelia sua tristeza e suas perguntas, fazendo com que atingisse os ouvidos do médico, trazendo-lhe a preocupação até a sala-de-espera.
— Não, mãe! Me solta! Não tá vendo? O menino já tá levantando! Ele quer conversar comigo agora!
Nos braços da mãe, a pequenina chorava e berrava, porém parecia mais um lobo furioso a uma frágil garotinha.
— O que acontece aqui?! – questionou o médico à secretária e à senhora, ante a qual não souberam dar-lhe uma resposta.
A mãe se retirou com a criança nos braços e, durante o caminho de casa, interrogava-se sobre aqueles momentos da filha.
Já em casa, enquanto poucas lágrimas ainda vertiam dos olhos da criança, a mãe, com toda a doçura dos genitores, explicou-lhe qual era a situação e porque o menino era tão tímido e insistia em matutar isoladamente seus pensamentos.
Na semana em que a mãe haveria de retornar para que o médico pudesse avaliá-la novamente, a menina insistiu em ir junto. Queria novamente olhar o moleque, caso lá se encontrasse, e ver se era verdade o que sua mãe havia-lhe dito.
No momento em que entraram na sala-de-espera, enquanto a mãe encaminhou-se à secretária, a menina logo assentou seu olhar no menino e o medo dela se apoderou, por estar ele presente novamente, na mesma estúpida posição, porém desta vez em um canto diferente da sala. No entanto, sua coragem foi maior e a ele se dirigiu.
A princípio, o rodeou. Neste momento, a mãe e a secretária foram tomadas por uma curiosidade excessiva, à qual a mãe já esperava uma satisfatória resposta. Posteriormente, a menina olhou-o fixamente. Tocou-o, alisando-lhe as mãos, a cabeça descoberta e os braços que outrora tanto foram puxados para uma possível companhia.
Tirou suas vulneráveis mãos do menino, olhou-o novamente e achou-o repugnante. Olhou sua mãe, sorriu-lhe timidamente e sentou-se no sofá.
A mãe, desta vez, levou-a junto a si à sala do médico e, após a consulta, enquanto se encaminhavam porta afora, disse a mãe à filha:
— Diga adeus ao seu amigo.
— Tchau, menino.
Saíram gargalhando, a mãe convidando-a a comer pipoca e a menina, então, vagamente ocupou suas idéias, esquecendo-se dos pensamentos profundos que tinha a réplica de cera do menino do consultório médico.


© Guilherme Foganholo

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Colapso (o primeiro conto deste que vos escreve...)




Acordei com a cabeça estourando de dor. Eu parecia uma mosca que havia caído nas teias de uma aranha sedenta e faminta. A cada mover de pálpebras, eu sentia uma pancada misturando meus pensamentos, um chacoalhar no meu cérebro. O azul dos meus lençóis era ondas salgadas e gigantescas a quebrarem em meu corpo, a se desmancharem nos meus ossos. Meu travesseiro, sempre tão macio, sempre me dando um afago nos cabelos, um carinho suave após o dia cansativo, hoje tornou-se uma rocha cristalina, uma consistência de diamante. Os pés da minha cama, que pareciam eternamente estar cravados no piso, hoje, eram amigos da minha dor. A cada pisar no chão, eu me estremecia e me apoiava nos móveis e objetos ao meu redor. Tinha um receio de debruçar, morto, no chão.
A água que corria pelos canos do banheiro fazia um barulho ensurdecedor ao passar pela dureza do material como se assim, houvessem atritado um garfo num prato de porcelana. E quando se espalhava pelos meus dedos, eu via com enorme pavor águas-vivas a queimarem a minha tez alva. Estarrecido, fechei logo as torneiras e ao enxugar minhas mãos na toalha, sentia a terra do algodão do tecido alfinetar a carne abaixo das minhas unhas.
Os móveis da sala de estar eram, no meu mundo instantâneo, feras com longas e embranquecidas presas mergulhadas em saliva, como se desejassem devorar-me o coração e triturar minha carcaça. Os sofás pareciam duas mulheres mortas, estiradas, sangrando, fetidamente gordas, a clamarem meu nome, a chamarem-me para me deleitar num suposto fogo infernal.
Corri à cozinha, e lá as coisas estavam piores. As louças, sujas, sobre a pia encharcada de formigas, eram corpos abertos com drupas cadavéricas a se esfregarem umas nas outras, implorando a mim para serem ajuntadas a outras nojeiras.
Os armários brancos eram árvores massacradas perguntando-me porquê haviam sido mortas. E eu abri, desesperadamente, todos eles, um a um, procurando por um remédio que eu sabia, me deixaria pior do que já estava. Mãos com dedos faltando pulavam de dentro dos armários, quando, finalmente, encontrei o frasco. Sem olhar nem pensar novamente, observei subitamente um símbolo de veneno impresso na etiqueta colada no pote de vidro. Nada disso me abalou. Tomei algumas muitas pílulas daquelas, que na minha boca sangravam.
Mesmo querendo curar a ilusão que o pó branco e ácido do dia anterior me entregou, eu caí, pálido e mergulhado em convulsões, no chão, como se eu estivesse me afogando na solidão mórbida dum abismo.
Tudo, então, ficou pior. O telefonema da madrugada anterior ecoou neste meu pesadelo e ficou cravado no meu túmulo como versos deveriam ficar gravados no granito após velórios e durante enterros e eternidades.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Mulher de lindas panturrilhas




A professora parecia até mesmo uma daquelas estátuas femininas gregas. As suas formas me agradavam de tal maneira, esplendidamente. Olhava suas panturrilhas tão bem contornadas, os músculos dispostos de maneira tão perfeita! Dava-me até mesmo uma certa introspectiva vontade de mordê-las para ter a certeza de que não eram de plástico ou se a carne era humana mesmo. A tez negra me atingia as íris, contornava minhas vagas idéias que se destinavam simplesmente à percepção da beleza pelos meus olhos. Suas pequeninas tranças, de longo comprimento, a cada movimento batiam-lhe os ombros e se repousavam em suas ainda indispostas asas. Seriam de anjo? Ela continuava desenhando seus gráficos no quadro-negro, fazendo indicações de abscissas, coordenadas e equações de todos os tipos, com as quais eu pouco me importava, pois de nada me adiantariam em minha vida de andarilho e conhecedor de universos. Em minha mente o tudo era alternado ao nada. Às vezes, suas lindas panturrilhas me vinham à mente – e aos olhos, logicamente –, outras vezes, uma imagem brotava da imaginação: talvez um banho em meio à névoa de vapores aromatizados de saunas femininas. Seus contornos, suas linhas todas se emaranhavam em minhas vilosidades cerebrais. Confundiam-se com a irradiante alegria que seus esbranquiçados dentes de mulher negra emanavam a cada lasso sorriso rasgado de professorinha. Seria o giz a tintura que os deuses incendiavam naquela coisa em forma de gente? Retas, pontilhados, círculos abertos e fechados, números em parênteses, e uma voz aveludada me chega aos ouvidos:
— Beto, qual é, afinal, a equação geral desta reta?
Meti em minha feição os mesmos beicinhos de quem não sabia a que a professora se referia. Ela, então, com a face contrariada, respondeu-me muito amargamente:
— Vê se presta atenção, agora, Beto. As respostas eu vou pôr no gráfico...
E, ainda não sei o porquê, mas o que antes era aveludado me soou como se fosse um gemido das acompanhantes para as quais eu costumava ligar para passar meus infestos trotes telefônicos. Virou-se a professora e então, com a mente mergulhada em depravação, olhei – seria mais probo dizer que apreciei – suas belas nádegas, sua bem-desenhada anca, seu quadril tentador, e, coloquialmente falando, sua bunda de mulher definitiva parida de Eva... Eu, deitado na octogésima visão, continuava a admirá-la. De modo súbito, algumas bolinhas de papel – de tamanhos proporcionais a determinados danos – começaram a voar pela sala, enquanto, desatenta, a professora continuava passando suas malditas expressões matemáticas. Sem que – quase – ninguém percebesse, uma das bolinhas foi diretamente conflitar nos lábios de uma das inspetoras do colégio, que entrava naquele momento na sala para dar um recado qualquer... Justamente a inspetora que usava aqueles milhares de ferros bucais. O impacto fez brotar de sua boca um sangue tão vivo, tão vermelho, claramente adocicado. A professora, logo que viu em que estado se encontravam os lábios de tão medonha mulher – a inspetora era mais conhecida como parida dum incesto, por ser tão agradável sua beleza – pôs-se a olhar atentamente para seus alunos e já foi logo questionando-(n)os:
— Quem diabo foi que jogou essas bolinhas na boca dela?
As últimas palavras ditas pela professora entoaram de modo conotativamente esdrúxulo. De minha imaginação jorraram muitos pensamentos. Os mais estranhos possíveis sobre as posições sexuais preferidas da professorinha, por exemplo. As bolinhas que mais anteriormente me pareceram carolinas recheadas com doce-de-leite passando pelo céu da sala-de-aula agora se encontravam no chão de pavimento azulado da classe, enquanto vultos da própria professora e de vários outros seres que a desejavam profundamente se amavam no piso da sala-de-aula e se confundiam com o que deveria ser verossímil ou não. A professora continuava firme e forte com suas fartas panturrilhas e gesticulando verbalmente sobre o corte na boca da inspetora que havia acabado de deixar a sala para visitar um médico. Após suas alongadas explicações sobre equações gerais e retas e coisas relacionadas a isso tudo, a professora, com sua beleza inigualável, aconselhava que comprássemos um livro sobre geometria equacional, seja lá o que isso queria dizer:
— Pessoal, sugiro que vocês adquiram este livro. Foi escrito pela dona daquele outro livro de matemática que eu disse semana passada.
As formas esféricas que estavam impressas no livro mais me pareciam as formas arredondadas da professora em seu tom mais sensual, no dégradê mais íntimo de suas partes íntimas. No entanto, quanto mais meu cérebro a idealizava, mais o meu corpo a desejava histericamente. Que será que acontecia com o meu bom-senso? Afinal, quando o berreiro daquela buzina ensurdecedora de ambulância tocou para que nos puséssemos longe dali, vagamente, com os cadernos flutuando nos dedos, dirigi-me à professorinha que discretamente – perceptível a mim – ajeitava a alça de seu sutiã.
— O que houve, Beto? – me perguntou.
E, sem que eu pudesse ao menos pensar sobre os meus questionamentos e as minhas idéias sobre aquela mulher inebriante, de meus lábios escaparam frases do típico moleque infiltrado em amor passional por sua professora, daqueles que dizem besteira somente para afirmar que disseram algo para a mulher que amam.
— Professora, eu gostaria de contar uma piada pra senhora. Eu percebi que a senhora esteve meio tristonha durante toda a aula. A piada é sobre um homem que trabalhava na fazenda de um tio meu. Ele chegou um dia pro meu tio e falou: “vô tocá gado, sô” e o meu tio falou que ainda não era avô.
Sei que me pus a chorar de tanto gargalhar, enquanto a professora, com suas formas uniformes, sorriu-me um sorriso tímido e amarelo. Deixei a classe ainda com as lágrimas penduradas nos cílios inferiores de meu rosto macilento. Tive a coragem de olhar para trás para verificar se a professora ainda se encontrava em seu lugar habitual e juro que pude vê-la com os seios à mostra, batendo os dedos sobre a madeira da mesa. A partir disso, a sua voz soou-me como se Deus se dirigisse a mim para uma conversa em particular. Era praticamente um eco infindo. Minha cabeça foi, repentinamente, tomada por uma dor intensa. Talvez fosse o sol me queimando o coro cabeludo, fervendo meu líquido plasmático vital, fritando a carne de dentro de meu crânio. Cheguei em casa enquanto a professora não me saía da cabeça. Recusei o almoço que havia preparado com tanto carinho minha mãe, tomando, apenas, um longo copo d’água. A enxaqueca se extinguiu. Deitei no sofá rasgado de minha casa e recordei-me que no dia seguinte eu haveria de ter aula com a mesma professora de hoje e, mal podia imaginar de me ver livre dela, de seu quadril já atingido pelo tempo, daquelas suas gorduras todas, as varizes pulando das pernas, os pêlos dos braços, aloirados por uma tintura vagabunda, os milhares de grampos no cabelo descuidado, as rugas na pele sofrida de muitos anos... Recordei-me também, novamente, que não me fazia bem fumar aquele negócio que sempre achava na gaveta do armário de meu irmão mais velho, algo um tanto estranho que tinha o nome da minha professora... Como se chamava mesmo? Era um nome parecido com Maria Joana... Se bem me recordo era uma tal de Marijuana Cannabis não sei de quê...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

ESPECTRO NO ESPELHO DE OLHOS PUERIS





Meus sonhos são sempre estranhos. Sempre. Porém, o que naquele dia ocorreu-me não teve nada de onírico. Foi muito real, apesar de sempre me surgir um resquício de dúvidas. As dúvidas rapidamente aparecem embrulhadas em minhas idéias a partir do momento em que me pergunto como pôde ser tão concreta – ou fluídica – aquela situação esdrúxula e se não poderia ter sido algo psicológico. Hoje, com vinte e oito anos, eu custo a acreditar que o fato ocorreu só por mera coincidência. Prefiro crer – e tenho certeza absoluta – que alguma mensagem estava disposta a ser encaminhada a mim com todo aquele acontecimento.
A história se passou no ano de 1987, quando eu tinha doze anos. Meus pais eram dois loucos workaholic, afetados pela correria do dia-a-dia. Eu e meu irmão mais novo estávamos sempre aos cuidados de uma senhora que nos conhecia desde que éramos recém-nascidos, dona Joaquina, apelidada de ‘Tia Quina’. Ela vivia conosco sob o mesmo teto e era praticamente nossa mãe, haja vista que a biológica saia às sete horas da manhã e retornava às onze da noite, horário que incitava a necessidade das oito horas diárias de sono. Já nosso pai, ah! nosso pai... Sempre foi de praxe que ele viajasse semanas e mais semanas como vendedor de uma série de produtos agrícolas.
Mas isso não vem ao caso. Comecemos nosso relato esdrúxulo, antes que você, leitor, perca a paciência e resolva abandonar o texto. Porém, aviso: você deve agora escolher entre interromper a leitura do conto para, quem sabe, começar outra qualquer (indico os contos do Marquês de Sade, se preferir) ou continuar a viagem. Lembro-lhe que se escolher a segunda opção, poderá facilmente ser incitado ao medo ou à gargalhada, à crença ou ao ceticismo, à apatia ou à reflexão.
Se você ainda deseja prosseguir com o que me ocorreu naquela madrugada do dia trinta e um de outubro – Dia das Bruxas é mera coincidência – de 1987, prepare-se – ou para muito, ou para nada, só depende da sua opinião. As cinzentas nuvens carregadas que vejo encobrir o azul do céu e engolir as brancas nuvens me trazem à lembrança a funesta face de uma mulher. Da mesma mulher.
Pois bem. O dia era 31 de outubro de 1987 como já foi dito. Naquele sábado, as tarefas cotidianas já haviam sido feitas e trazido a todos nós – nossa mãe, Tia Quina, meu irmão, Júlio e eu – o cansaço de um dia em que todos os compromissos deleitáveis a um final de semana haviam sido cumpridos. Eu havia ido dormir bem mais tarde que o horário normal em que eu costumava dormir. Os filmes e desenhos animados – inéditos e muito ansiados por mim e por meu irmão – fervilhavam nos canais da televisão, impossibilitando-nos de ir à fábrica de sonhos (refiro-me a uma noite bem dormida). Mal sabia eu que o que era para ser a madrugada de um sábado normal para um domingo normal seria um marco em minha vida.
Meu pai, como de costume, viajava para as visitas com seus clientes. Minha mãe, àquela hora, provavelmente já estava no centésimo sono. Tia Quina já havia se retirado após mimar-nos com um delicioso pudim de milho que só ela sabia fazer. Talvez estivesse, então, rezando para seus santos ou lendo a Bíblia, como católica fervorosa que era.
Eu e Júlio assistíamos à televisão, enquanto nos deliciávamos com o pudim de Tia Quina, quando, em aproximadamente dez míseros e longos segundos, ouvimos o que alguns anos depois vim a saber ser uma das maravilhosas músicas de Beethoven assoviadas por sabe-se lá quem. O som era tão perfeito e tão próximo a nós, que sentimos, atemorizados, o terror que se sente quando algo estranho ou sobrenatural acontece. O olhar que não consegue ser desviado para lugar algum, o entorpecimento dos músculos, o ouvido atento ao mínimo ruído.
Aos poucos esse estado, que geralmente aparece nas crianças quando têm pesadelos, foi desaparecendo. Apesar do susto, nos encobrir debaixo das cobertas com quase todas as luzes da casa acesas era o meu principal objetivo. E assim fiz. Eu fui o primeiro a deitar. Júlio insistia em ir ao banheiro, enquanto eu insistia para que ficássemos juntos. Ele, sempre mais corajoso que eu, gargalhou vendo minha feição de menino medroso e explicando, como se fosse Tia Quina, querendo amparar seus filhos: Deve ter sido alguém do lado de fora de casa, algum vizinho, provavelmente. Mas eu custei a acreditar e aceitava bem mais o fato de ser alguma espécie de monstro verde e gosmento ou um extraterrestre também esverdeado, de olhos do tamanho de pires ovais, que quisesse nos abduzir. Quanta incoerência infantil! Desde quando monstros gosmentos e extraterrestres verdes conheceriam Beethoven?
Deixei algumas das luzes acesas. A maioria delas, logo depois foram apagadas por meu irmão, que voltava da sua ida triunfal ao banheiro. Disse-me que não havia nada na cozinha. Era apenas a janela que estava aberta, segundo ele.
Vagarosamente, enquanto conversávamos, fui adormecendo e sentindo as luzes se apagarem vagamente.
Sonhei com meu pai, pelado, tocando um violão de duas cordas e minha mãe, ao seu lado, careca, dando-nos massa crua de macarrão para comer. Bem disse, no começo do relato, que meus sonhos são sempre estranhos. O fato é que acordei com a boca implorando por um copo d’água. As cobertas me sufocavam como me sufoca o vapor aromatizado com essência de eucalipto de uma sauna. Enquanto, ao meu lado, na outra cama, meu irmão roncava, babando no travesseiro, o peito arfando por causa do clima quente do quarto, na cadeira da nossa escrivaninha, à nossa frente, estava uma mulher de longos cabelos ruivos. Adquiri algumas privações, seguidas à risca até hoje, quando me lembro do meu pavor por ruivas. Sempre sofri o fato de não me sentir atraído por ruiva alguma. Talvez, e hoje posso concluir, tenha sido por causa desta pavorosa situação. Enfim, as ruivas nunca estimularam meu apetite fisiológico. Sempre, naturalmente, foram repudiadas por mim. Coitadas.
Abramos um parêntese: Minto, minto sim. Nem todas as ruivas me são repudiadas. Atualmente, e para sempre será, há uma ruiva que muito me encanta. Pena não ter vida. Aliás, sua vida é magnificente nos quadros de seu criador, Gustav Klimt. Refiro-me a Dânae, a ruiva com a beleza masturbatória da mulher. Seu olhar de prazer eterno me fascina. O ouro, símbolo de riqueza espiritual e de beleza física brota-lhe pela vulva tão escondida pela sua própria coxa abrangente. Lembre-se deste nome: Dânae, a ruiva do lindo seio esquerdo à mostra. Fechemos o parêntese.
Ela mantinha as costas abaixadas, os cotovelos apoiados nas pernas, enquanto as mãos em forma de concha se fechavam em sua face, impedindo a sua percepção detalhada. Vestia um tipo de camisola parda, diáfana, com alguns desenhos orientais. Tomei um susto milhares de vezes mais apavorante que o que havíamos tomado com o assovio de Sir Beethoven. Encostei-me na parede gelada, os olhos arregalados, o coração palpitando fora do normal, a garganta, antes seca, agora árida, sem conseguir engolir a milésima parte de um mililitro sequer de saliva. Como havia surgido aquela criatura? De onde, principalmente, tinha vindo? Como conseguira entrar em casa? E por que diabos estava sentado na nossa cadeira, com a cabeça ali, baixa, parecendo uma pessoa aos prantos no velório de algum ente querido? Se fosse um ladrão – de camisola? – que levasse tudo, menos a nossa vida, e que partisse rapidamente!
Mal conseguindo me mexer, dei um breve e sofrível chute no braço de meu irmão, que acordou e me xingou de todos os nomes possíveis, voltando logo em seguida a dormir. Não restava luz alguma acesa na casa. Só o brilho lunar iluminava aquela criatura, que continuava imóvel em seu lugar. Logo me lembrei dos relatos de uma prima nossa que adorava nos fustigar com suas idéias mirabolantes. De imediato recordei-me da história do vestido usado. Basicamente era sobre uma adolescente que havia comprado um vestido usado. Chegando em casa, deixou-o sobre a cama e foi tomar seu banho. Quando retornou, viu uma menina de mais ou menos dez anos chorando aos pés do vestido cor-de-rosa e gritando para que queimasse tal vestido.
Fui me acalmando quando deduzi que podia perfeitamente ser minha mãe. Mamãe conservava longos e ruivos cabelos, iguais aos da mulher da cadeira. Chamei por ela, enquanto esperava irrequieto por sua resposta. Porém, simplesmente tirou as mãos do rosto e passou a me olhar. Um olhar de ternura, as olheiras profundas de mulher maltratada pela insônia.
Tive um imenso medo. Nunca senti tanto medo como naquele momento. Eu não fazia idéia de que poderia ser aquilo. Qual seria a próxima atitude do ser? O que diabos era aquele ser? A escuridão mergulhava sua confusão de sua tez linfática com o brilho da Lua. Apossava-se de mim um certo receio de procurar minha mãe ou mesmo Tia Quina e encontrar mais criaturas que nunca havia visto na vida.
Aproximei-me dela, enquanto o ângulo de seu pescoço era modificado a cada movimento meu. O medo tomava conta de todo o meu corpo, porém, foi a primeira vez na vida que percebi que os demônios do medo deveriam ser combatidos com o questionamento e posteriormente, com o desvendamento do desconhecido. Ela sorriu a mim, timidamente. Fiquei a dois palmos de distância dela. Estiquei meus braços, tentando tocar suas madeixas e afagar seu rosto pálido. Ela se desviava dos meus dedos. De súbito, pegou meu braço enquanto eu tentava apalpá-la e perguntou-me com uma voz maltratada, rouca e agora sim, mais assustadora. É esse meu presságio, tenha medo e preste muita atenção nos vivos, não nos mortos, os mortos só cantam e encantam, os vivos é que realmente nos amedrontam, menino. Confesso que hoje, honestamente, concordo com o que me disse a mulher. Apesar disso, no momento, a apreensão foi bem maior que a necessidade de um breve momento filosófico.
Corri o mais rápido que pude com minhas pernas finas, os joelhos tortos, os pés nus correndo pelo carpete, o corredor escuro longínquo. Eu estava como um solitário em meio à bruma de um labirinto. Avistei o quarto de Tia Quina e rapidamente lá me infiltrei, tentando acordá-la com minhas súplicas. Ela se levantou, me abraçou, perguntando o que estava acontecendo, por que eu chorava tanto com meus olhos infantis. Voltei-me para a porta, apontando, sem conseguir fazer soar uma palavra sequer. A moça dos cabelos ruivos estava parada à beira da porta, me olhando, me despindo com seu olhar maquiavélico. Colocava o dedo indicador sobre os lábios, fazendo menção para que eu me calasse. Olhei Tia Quina, em seus braços, desesperado e ainda hoje posso jurar que a mesma voz que ouvira outrora saía da garganta de minha tia, pedindo para que eu amparasse ao meu irmão sempre que necessário e que mantivesse o silêncio, que era essencial. Neste momento, desmaiei e fui acordar, com uma enxaqueca adormecendo-me a alegria dos domingos matutinos.
Há duas semanas, meu irmão Júlio morreu. Tinha vinte e seis anos bem-vividos. Morreu de câncer, morreu jovem. Câncer na garganta. Paradoxalmente ao que houve naquela noite, tudo que me foi dito, mesmo que imperceptivelmente, segui como era para ter sido. Cuidei de Júlio, enquanto possível, com o amor de um pai ao seu filho.
Tia Quina há dez anos roubou-nos toda a casa e fugiu para sabe-se Deus onde. Todo o dinheiro conseguido com o suor de meus pais foi levado. Aí o porquê de se prestar atenção nos vivos, só agora foi seriamente analisado (por mim, logicamente). Quanto ao silêncio, talvez algo ainda esteja por vir... Ou talvez se referisse ao silêncio monótono necessário nos hospitais.
A verdade é que até hoje não sei o que foi que realmente aconteceu naquela noite. O que era aquilo? Seria um espírito, uma entidade paranormal ou problemas psicológicos? Seria minha consciência ou uma premonição qualquer? Nunca se sabe o que pode ter sido e não foi. Mas sempre – ou quase sempre – se sabe o que foi e poderia às vezes, felizmente, para nosso deleite, não ter sido.

quinta-feira, 13 de março de 2008

CRIATURAS EM MEU JARDIM



Uma homenagem ao grandioso Moacyr Scliar e seu centauro no jardim...




Hoje, me bateu à porta um centauro. Um centauro forte, formoso, entupido de músculos e com uma barbicha bem mal-desenhada na face. Eu o olhei, admirado, que diabos era aquela criatura? E o que fazia na porta da minha casa?
"Você é Ronaldo Madonaldo?"
"Sim, sim, mas quem é você?"
Ele nada disse, apenas pregou um sorriso meio torpe na boca e, empurrando-me de lado, quis entrar.
"Quem é você?", quis logo saber, afinal, não é todo dia que encontramos um ser inimaginável como aquele. "Quem? Diga-me, diga-me logo!", reiterei minha questão.
"No exato momento isto não lhe importa."
"Como assim, não me importa? Você chega, sabe o meu nome e já quer adentrar minha residência. Que é que você está pensando, hein?"
O centauro me olhou, fixou seu olhar devastador em mim, abaixou seu corpanzil na direção de meus olhos, seus quase dois metros e meio abaixados na altura dos meus olhos mortais.
Senti um certo receio em haver dado tantas ordens, poderia ser agora que eu daria meu último suspiro nesta vida cheia de rumos pré-estabelecidos.
Ele novamente me encarou, percebeu o pânico se apossando de mim. Pôs suas mãos em meu rosto, e como quem se prepara para dar um beijo na boca da amada, estapeou minhas bochechas e da minha alma se apiedou.
"Eu sou um centauro."
"Ah, que maravilha... Não me diga que é um centauro. Sabe que eu nem percebi?", ironizei um pouco, talvez a ironia me fizesse acalmar o sangue que fervilhava em minhas veias.
"Eu e alguns amigos viemos fazer uma reunião por aqui, tendo você como adorável anfitrião que haverá de ser."
Eu estava abobado com o que me havia dito o centauro... Uma reuniãozinha em meu casebre, que pilhéria! Agora, realizem: uns dez centauros em minha casa, dançando um bate-estaca com seus cascos estourando o ladrilho da minha sala. É como querer enfiar dez cavalos dentro do meu lar que até o minuto anterior tinha sido construído para uma única pessoa: eu.
Devo acrescentar também o fato de que a minha parvoíce provinha do singelo fator sobrenatural que vinha da cena. Alguém no mundo já teve a campainha tocada por um centauro? Ah, eu precisava dormir, começava a imaginar coisas...
"Relaxa, cara, o pessoal já está vindo. Sente-se aí, finja que a casa é sua" e gargalhou o grande jumento, como se a casa realmente não fosse mais minha propriedade.
"Claro, claro", começava a sentir uma certa tontura se apossando de mim, "eu vou dar um pulo até a cozinha e já volto."
Ele assentiu com a cabeça enquanto olhava a tecnologia dos computadores, televisores, aparelhos de som e coisas neste estilo que a modernidade do dia-a-dia insistia em nos apresentar. Seu olhar era tão aparvalhado como o meu perante tão original criatura.
Meus dedos já não paravam quietos nas mãos. Tremiam como nunca antes haviam feito. Será que eu fazia parte de mim?
Pus água em um bule, precisava tomar um chá de erva-cidreira para que pudesse, enfim, acordar. Talvez tudo não passasse de um sonho.
A água já estava fervente o suficiente para queimar minha garganta. Despejei-a numa caneca de louça, mergulhei o pequeno pacote de chá e quando abri o armário para que pudesse pegar o açúcar, o pote caiu, sem a tampa, direto no granito da pia, fazendo uma sujeira imensa. Só me faltava essa, mesmo. O dia estava perfeito para nada.
Subitamente, do que restava no pote de açúcar, alçou vôo um ser minúsculo e luminoso, que ficou a pairar sobre a minha cabeça. Doía intensamente; creio que a Loucura era parte inerente à minha alma a partir de então.
"Desculpe-me pela bagunça..." disse a pequena criatura com uma voz doce, macia e serena.
Deixei minhas pálpebras semi-abertas, forçando a vista para que pudesse enxergar melhor o que ocorria ante meus olhos.
Do tamanho do meu dedo mínimo, uma miúda garotinha punha-se a falar, com dois pares de asas a ruflar, como se ruflasse suas asas um beija-flor. Possuía cabelos negros, presos num coque que parecia ter sido feito por delicados dedos. A pele extremamente alva, uma alvura tão frágil que, de repente, interrompeu a magia do momento para me questionar:
"Já chegou o Centauro?"
"Primeiramente, quem é você?"
"Meu nome é Açucena."
"Até que enfim alguém me dá um nome."
"Seu nome é Ronaldo Madonaldo, sim?"
"Como diabos vocês sabem da minha existência?"
"Ora, ora, você é um problema para nós."
Um problema, eu? Neste exato instante, meu cérebro se infestou de horríveis pensamentos. A morte poderia vir à centauro. Fadas e centauros querendo me assassinar na minha própria casa! Oh, vida cruel! Viver é impossível!...
O que eu deveria fazer? Cortar meus pulsos?
"Um problema que será solucionado hoje mesmo", completou Açucena.
Misturei o açúcar ao meu chá. O mesmo açúcar derramado na pia da cozinha. E lembrei-me daquela bagunça toda.
"Só por curiosidade, o que você fazia no pote de açúcar?"
"Procurava por minha irmã."
"Irmã?", verifiquei se a febre me fervia por dentro.
Fomos até a sala e o centauro conversava com uma segunda fada.
"Ronaldo Madonaldo?", perguntou-me a nova visitante.
"Outra? Ó, Cristo...", bambeei as pernas e o centauro me segurou, deitando-me no sofá.
Desmaiei.

Quando acordei, a sala estava repleta de novos visitantes. Mais dois centauros se encontravam no local. Fadas aos milhares girando nos ares; duendes de todas as cores mexendo nos objetos da minha sala; pequenos anjos nus com seus arcos e flechas acertavam os desenhos de minha cortina; quatro elfos, alvos como as próprias fadinhas, conversavam e olhavam para mim; monstrinhos peludos mudavam insistentemente os canais de minha televisão.
Não cria no que via. Que algazarra era aquela? Rezei baixinho para meu Deus. Queria acordar no próximo instante. Fechava as pálpebras e quando as abria novamente, eles ainda estavam lá. Fazendo bagunça, mexendo nos meus pertences, tirando tudo fora do lugar. Onde estava minha privacidade? Ó, Deus, onde estava você?
No momento em que me viu acordar o centauro primeiro, foi logo batendo palmas, pedindo atenção e mandando todos se calarem.
"Ronaldo Madonaldo já se levantou de seu sono profundo. Esperemos um instante mais, Ela deve estar para chegar."
"'Ela?'", perguntei.
"Ela, Ela sim."
Pois é, “Ela” estava para chegar, seja quem fosse Ela. E eu, como anfitrião, dormindo no sofá. Mas que diabos...?!, eu sou o dono desta casa!
Levantei-me, ainda cambaleando um pouco, ergui o dedo e fui exclamando:
"Ponham-se fora da minha casa, criaturas! Eu não fiz nada para nenhum de vocês! Não há porquê vocês estarem aqui, testando a minha paciência!"
Eles gargalharam. Gargalhadas macias misturavam-se com gargalhadas roucas e gargalhadas altas faziam parte de outras gargalhadas que mais pareciam melodias afáveis. Eu começava a me desesperar.
"Não estamos aqui porque você fez ou deixou de fazer algo para nós, Ronaldo", disse Açucena; pude vê-la nitidamente.
"Estamos aqui porque você deixou de fazer algo para você", acrescentou o centauro.
Foi o auge da incompreensão. Agora eu não entendia bulhufas. “Ela” estava para chegar, sabe Deus de onde. Eu deixando de fazer algo para mim mesmo. O que ocorria? Começava a dispensar a presença deste meu questionamento.
Num instante em que as poucas gargalhadas ainda proviam a minha incompreensão, o vidro da janela da minha sala de estar estourou. Todos se calaram e apreciaram os cacos estilhaçados no chão e o que sobrara no lugar do que deveria ser um vidro inteiro.
À minha frente, minúsculas partículas começaram a se formar, aglutinando-se umas às outras, luminosas. Enormes partículas azuladas e amareladas se juntavam. Um espetáculo que nunca antes havia visto. A silhueta de uma pessoa começava a se fazer presente.
Uma linda moça alva como nunca vira antes encarnou a meio centímetro de meus olhos. Possuía longos cabelos negros, discretos cachos sedosos se amando no chumaço de fios negros que era aquela deusa de nome Beleza.
Ela era dona de um olhar que entorpeceria o próprio Criador. Um olhar profundo de querer fazer qualquer pessoa por Ela se apaixonar. Um olhar capaz de derrubar multidões. Um olhar capaz de iluminar escuridões. Um olhar capaz de limitar solidões. Um olhar capaz de destronar os barões. Um olhar capaz de construir corações. Um olhar capaz de demolir casarões. Um olhar capaz de apagar sofreguidões. Um olhar capaz de desassociar associações. Um olhar capaz de despertar mil paixões.
Vestia um longo manto azul de pequenos detalhes amarelos. Acariciou-me a fronte. Senti o que nunca antes havia sentido. Seus carinhos eram fruto da ambrosia dos deuses. Era impossível não se sentir no Paraíso, mesmo crendo durante toda a minha vida que o Paraíso não existia e que Deus era um fator da mídia.
"Chama-me Aurora."
Eu não mais pensava nos outros seres. Só a via, unicamente. Era um sonho uno, sem precedentes quaisquer. Era o retrato de Afrodite.
"Pois bem, eis que chegou a Aurora!", gritou o centauro.
"Desculpa-me pelo vidro, Ronaldo."
Eu estava aparvalhado no meio do sofá. E logo comecei a me aparvalhar ainda mais:
"Uma entrada triunfante para um alguém triunfante..."
"Estamos aqui para ajudar-te", balbuciou docemente Aurora.
"Ajudar-me? Que foi que fiz?"
O centauro se pôs na minha frente, olhou-me os olhos, bateu os cascos no chão algumas vezes, fazendo os outros seres se agitarem e perguntou-me:
"Onde está sua Fantasia?"
O que me era incompreensão pura de um grande mortal, continuava incompreendido.
"Fantasia? Mas eu nunca fui a qualquer baile de carnaval, nem à fantasia, nem de máscaras..."
"Não é esta fantasia a que nos referimos, Ronaldo. Queremos dizer Fantasia no sentido onírico. Onde estão teus Sonhos? Onde está tua Pureza Pueril? Onde está tua crença em algo maior, em algo que se esvai da simples tez terrena? Onde está tua crença na Fantasia? Na Magia? Na Limpidez do Olimpo? Onde está teu Cosmos?"
Onde estava minha Fantasia? Eu não sabia responder. Talvez nunca a tivesse. Talvez nunca eu tenha parado para pensar que ela poderia estar adormecida dentro de mim.
As pessoas não mudam umas às outras, não foi isso que Aurora fez à minha alma. As pessoas simplesmente acordam em outras pessoas os sentimentos que hibernavam em seus imos.
"Temos uma segunda chance a dar-te, Ronaldo. Tens a oportunidade de nos sentir à flor da pele, como uma inspiração poética. Sonha, aspira os ares da Fantasia. A vida não é feita só de dinheiro, só de tecnologia, só de modernidade. A vida é feita de Amor, Felicidade e Fantasia. Os três te faltam. Comecemos pela construção de tua Fantasia."
Aos meus olhos, Aurora se desintegrou, deixando um marcante perfume de flores pairando no ambiente.
Aos poucos, cada ser diminuto foi saindo porta afora.
Por fim, o Centauro pôs sua mão forte nos meus ombros e disse-me:
"Eu confio em você. Eu acredito em você. Você pode, você deve. A Fantasia é seu rebento, a partir de agora. Cria como seu filho."
Vagarosamente, a Fantasia se construiu em mim, assim como surgem as asas nas lagartas e assim como as explosões podem formar novos mundos.

Mal sabia eu que na semana seguinte receberia uma outra visita inesperada:
"Onde estão seus projetos de computadores, Ronaldo?"
Foi mais ou menos isso que perguntou meu chefe, tendo em vista que há uma semana eu procurava por minha Fantasia em meus sonhos.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

OS COELHOS

Os coelhos são estridentes: “olha a hora, olha a hora”! Se meus passos me conduziam rumo a precipícios de minutos atrasados, tudo bem. Mas eu deveria, sim, ter saído mais cedo de casa.
Nem no dia da entrevista tão esperada, a maldição em relógio dos meus ponteiros fez me acordar. Sempre, indubitavelmente, em momentos inoportunos, as máquinas parecem estar a meu desfavor. Universo conspirando junto a mim e de acordo com a minha disposição? Mentira. O Universo sempre conspira depois que eu acordo atrasado, com cara amassada de rapaz repleto de sono, com o cabelo a pentear, ainda babando por conta do sonho findo com a vizinha exuberante, e com a agitação palpitante dos corações em atraso.
Se eu correr? Aqui, em meio a avenidas que se entrecruzam, que dão piruetas e cambalhotas, agitadas por milhares de automóveis em disparada, feito sociedade de formigas operárias, a minha pressa é inimiga capital da perfeição. Mesmo porque a perfeição já não existe. Existiria meia hora atrás. E levando-se em conta que o eventual emprego é lá no cafundó do Judas, e que a entrevista já começou há meia hora e que o ônibus só chega com sua face de máquina corrosiva daqui a quinze minutos, pra quê correr?, disseram-me os cadarços do meu tênis.
Pois bem, vou andando. Caminhando, tentando não sentir a vibração inócua do caos urbano, olhando os pequeninos pássaros ruflando a cântaros em árvores imensas, que tomam lugar com os edifícios residenciais e comerciais, apreciando o outono chegando, as folhinhas amareladas flutuando ao sabor do vento, os olhos esverdeados de donzela de decotes profundos...
Paro em frente a um enorme edifício de vidros espelhados. Uma moça muito elegante me olha, num misto de preocupação com vergonha, o rosto corado por perceber que eu a percebia. De seios fartos, o decote rasgado fazia com que eu me esquecesse de que havia quinze minutos guardados em meu bolso.
Com uma pasta em mãos, a moça parecia também estar em entrevista de emprego. Muito bem vestida, trocando olhares comigo, o rapaz atrasado de cabelos despenteados, e com o relógio, esse inferno de medir o tempo. O que são quinze minutos para mim? Um papo agradável vale mais que qualquer dinheiro.
“Olá, tudo bem?”, diz a minha face de sequóia.
“Tudo bem, como vai?”, diz, sedosamente, a sua boca nefelibata.
O momento de assassínio do assunto se apodera de nós. Os olhos se falam, mas os seus falam mais rapidamente, haja vista a sua discordância entre mim e o seu relógio.
Quando me preparo para elogiar-lhe os olhos, um senhor de aparentes cinqüenta anos se aproxima, com seu ar de galã mexicano, com seu topete de cabelos grisalhos e, se aconchegando o olhar, questiona:
“Valentina? É sua vez, o doutor Malloccini já está lhe esperando”.
Indubitavelmente, os meus já dez minutos iam cataratas abaixo. Precisava dizer alguma coisa, nem que fosse “o céu é azul”, ao menos para deixar gravado em seu dia a minha voz eterna de menino em início de puberdade.
Pigarreei e exclamei um “que horas são, por favor?”, tolamente sussurrado.
“Não sei, meu relógio parou”.
Ótimo. Meu relógio parou. Que situação maravilhosa! Uma fulgurante resposta para uma questão simplória. Enquanto o rapaz a leva para a suposta entrevista, ela, agilmente, retira o relógio do pulso e mo arremessa. Pra que diabos eu não sei. Sinceramente, não sei. Um relógio sem pilha, sem qualquer telefone da moça, sem qualquer indício de que um dia eu voltarei a vê-la. Se ao menos fosse um berrante celular!... Nessa maré de azar, muito provavelmente havia recebido aquele relógio para que eu o consertasse. Quanta pieguice; lembrei-me dos romances açucarados, daqueles em que a moçoila repleta de futilidade e ingenuidade retira um objeto de valor seu e joga para o pretendente, fazendo com que ele se desdobrasse em duzentas partes para descobrir como devolvê-lo à sua musa. Outros clichês me vieram à cabeça, como o casal em reencontro correndo em campos floridos, empestados de margaridas brancas e púrpuras, prestes ao abraço eterno; ou talvez aquela velha coincidência do destino, em que a mulher derruba um livro no chão e, ao tentar recolhê-lo, bate a testa na do príncipe encantado.
Enfim, dirigi-me à calçada, enquanto via a moça desaparecer por entre os vidros espelhados. Abaixo do sol escaldante, estava eu, olhando se aquele relógio não tinha alguma pista sobre ela, além do perfume que estava impregnado em sua pulseira. Olhei mais uma vez rumo à portaria do prédio e nada de ela retornar. Voltei a olhar o relógio. Os ponteiros em formato de espadas medievais cronometravam os minutos, segundos e o tempo imobilizados no espaço vão daquele encontro repentino do homem-de-face-de-sequóia com a mulher-de-boca-nefelibata.
Teria o relógio algum tipo de código secreto? Talvez abrisse um portal para outra dimensão, na qual eu desvendasse seus sonhos? Será que aqueles ponteiros-espadas eram uma alegoria de que eu fosse seu cavaleiro medieval? Ou será que eu estava ébrio o suficiente para não sentir os ricochetes da realidade?
Escolhi a última opção, referente à minha embriaguez. Enquanto divagava sobre o misterioso relógio, sutilmente preocupava-me com o horário que me era disponível até a chegada do ônibus. Não que eu estivesse totalmente atrasado, afinal, era-me possível que visse o ponto da condução do outro lado da rua.
À porta do edifício, na calçada, eu encontrava-me tentando encontrar alguma explicação para aquela situação. Haveria de ser grande coisa esperar por ela? Atrações por pessoas inesperadas são algo com que se preocupar?
Durante tais questionamentos, fui percebendo uma sombra de tamanho mediano sobre minhas mãos e o relógio, prolongada ao firmamento de minha cabeça. Ora, que diabos seria aquilo? Fosse talvez o relógio criando vida, eu não me espantaria. Mas a sombra foi aumentando cada vez mais, já encobrindo totalmente a minha cabeça, e, posteriormente, todo o meu corpo, como se houvesse uma nuvem de tempestade somente para mim, agarrando-se ao meu movimento mínimo, seguindo-me onde quer que eu fosse: uma onda de má-sorte, talvez. Grande maré de azar a minha! E maré alta, além de tudo! Como todo bom cidadão que estranhe algo sobre sua cabeça, resolvi olhar para cima, afinal, aquela sombra estava me indignando um tanto imensamente. Quando, finalmente, olhei para cima, desesperei-me tão intensamente que corri o mais rápido que pude para o meio da rua, num misto de salto em distância com atletismo, deslocando-me inteiramente da calçada e da frente do edifício no qual havia entrado a moça minutos antes. Uma moto buzinou estridentemente em minha direção, desviando, por sorte, de meu corpo. Aquele alarido ressonante me deixou ainda mais perturbado, fazendo-me cair em plena avenida movimentada e ralando as palmas das mãos – destruindo por inteiro o relógio da moça – e os joelhos.
Que inferno seria aquilo? Um Boeing caindo sobre minha cabeça em pleno centro da cidade, numa hora daquelas? Um fusca velho aterrissando sobre o meu cérebro? Ou um atentado terrorista contra a minha pessoa?
Quando olhei para a calçada, me respondi, quase que inacreditavelmente, com feições abruptas e chocadas: “Não, idiota. Alguém se suicidou”.
Uma parte considerável da calçada estava repleta de vísceras e ossos ensangüentados. Por pouco haveria de ser dois corpos mortos, inertes, extirpados de qualquer vestígio de boa-morte. Minhas mãos sangravam. Estavam em carnes vivas, quase pulsantes, pelo mergulho que me foi dado no asfalto. Eu já não me preocupava com entrevista alguma, com horário algum ou com nexo louvável. A vida prega as peças quando as pessoas menos esperam. Aproximei-me do corpo, que provavelmente havia caído no concreto como uma bexiga d’água estoura no cimento áspero. Minhas pálpebras não conseguiam silenciar um momento sequer. Tudo era registrado pelos minutos nas minhas retinas. As pessoas começavam a se aglomerar. Algumas mostravam faces repugnantes, outras se reviravam em dores oriundas da alma. Como é possível que alguém se mate dessa maneira?
Segundos depois o mesmo senhor grisalho que havia avisado Valentina sobre o momento exato da entrevista corre em direção à calçada onde jazia aquele corpo retorcido sobre o solo do mundo. Não era possível tentar reanimar a matéria finda de vida, pois não havia como segurar o suicida, sem possibilidade alguma de dizer “Ei, Fulano, acorde, desperte, vamos, vamos”, com tapas na fronte para fazê-lo novamente corar. Menos ainda havia vida, que, agora, para aquele cadáver de mil pedaços, era um inestimável luxo.
Só penetrou em meus ouvidos os murmúrios do senhor grisalho: “Meu Deus... Doutor Malloccini... Como foi que o senhor pôde...?”. Pois bem, ali estava o grande chefe, o todo-poderoso do edifício, o entrevistador de Valentina, o suicida insensato.
A moça estava na minha frente. Tinha acabado de presenciar a cena do patife espatifado no solo. Uma lágrima rolou-lhe face abaixo. Provavelmente não seria por algum tipo de relacionamento com o morto, mas pela situação da cena. Não é todo dia que se vê alguém brincando de super-homem pela janela de um apartamento. O baque ímpar havia chamado a atenção de quase todos os freqüentadores do edifício. Uma multidão apreciava, ébria, a cena do alto dos prédios, pelas janelas. Que covardia do destino. Um passo a mais e voa-se rumo ao precipício.
Valentina me olhou. Eu mostrei a ela o relógio em partes disformes. Ela sorriu algo sem-graça. Eu ainda estava estupefato com a situação. O senhor, agora, se exasperava, transbordava-se de revolta com os deuses. Dos meus minutos atrasados, além de vinte já estavam inexistentes de dentro de meu bolso furado. Eu vi a morte mergulhando sobre minha cabeça. Eu senti o planeta conspirar contra mim e, logo depois, a meu favor, dando-me nova vida de mãos e joelhos rasgados. Eu vi um relógio disperso de consciência. Eu vi uma moça desperta de consciência. Eu vi que, às reclamações anteriores proferidas pela minha boca-tempestuosa, um grito de viva deveria ser expelido. Eu vi que eu ainda vivia. Não tinha a mínima idéia do porquê do suicídio. Angústia Malloccini? Desespero Malloccini? Medo Malloccini? Desgosto Malloccini? Fosse angústia ou desespero ou medo ou desgosto, nada justificaria uma situação de querer ser águia pelas nuvens das alturas. Talvez o medo de viver justificasse sua posição nada ambígua. Talvez os minutos ultrajassem a apreensão da velhice. Talvezes.
Tentei entregar o relógio para a donzela de decotes rasgados. Estilhaçado, sujo, ensangüentado. Ela me olhou com aqueles olhos estúpidos, recusando o meu presente grego e voltou a apreciar o corpo morto. Gente mórbida de gostar de sensacionalismo.A partir de então, um novo sentido se apossou de mim. Retirei-me do local, estuprado de tantas presenças curiosas, arrebatando as partes que se acumulavam contra mim em vontade de ver o Malloccini. As manchetes reverberariam no dia seguinte. Segui pela calçada da grande avenida cinza. Joguei no primeiro bueiro aquela trágica memória que tinha em mãos (os coelhos em reclamações, “olha a hora, olha a hora!”). Eu chegaria em casa, lavaria as mãos e os joelhos, mertiolate-los-ia, sentiria a ardência deliciosa da dor de quem vive, sentiria o sangue a duzentos por hora nas veias, deitaria na cama e dormiria com um sorriso de orelha a orelha.
Segui. Vi um casal apaixonado de velhinhos na varanda de uma casa, sufocada por grandiosos prédios monumentais. A cumplicidade de dois carinhos. Vi as poucas flores brotarem em canteiros paralelos à avenida, com suas cores fulgurantes. Vi uma árvore de grandes folhas abrir seus braços sobre a cidade. Um ninho pequenino avistei ao longe, seguro por dois galhos como mãos divinas em conchas. Sorri, senti o ar refrescando as narinas.
Repentinamente, daquele lar aconchegante, um frágil ovinho rolou ninho e galho abaixo, espatifando-se no chão. O caldo amarelado escorria pelos ladrilhos portugueses, indo repousar no meio-fio da avenida.
Lá estava a vida se extinguindo e renascendo a cada badalada do sino da catedral, a cada brado retumbante do despertador, a cada segundo ido e vindouro dos relógios. E os coelhos, apressados.

© Todos os direitos reservados a Guilherme Foganholo e Ricardo Foganholo. Para utilização do conteúdo desse blog, favor contactar-nos.

Do propósito deste blog

Neste rico microcosmo, o que ocorre é o encontro de duas artes: a magia das ilustrações de Ricardo Foganholo e as matizes da literatura de Guilherme Foganholo, primos, que se põem a tecer uma arte de intensa presença, a partir dos talentos que lhes são inerentes, complementando-se um ao outro, na complexa simpatia de suas produções.