Sonhei. Entretanto, não sonhei como quem simplesmente fantasia algo, quem pinta algo no véu da noite, quem cria historietas em sacos de pão. Sonhei como se houvesse doado todo o meu sangue para estar naquela situação. Sonhei como se houvesse vivenciado aquele momento, carne-e-ossamente, sem incluir nem excluir uma vírgula sequer.
Sonhei. E sonhei que havia, em um lugar qualquer, uma sala gigantesca de onde despontavam brancas mesas redondas e suas respectivas cadeiras. Unicamente como se fossem margaridas que brilhassem com maior esplendor, despontando em campos floridos. Envolvendo tais móveis, havia pessoas. E essas criaturas prestavam atenção em algo, ainda que muitas delas caçoassem de sabe-se lá o quê, ou que gargalhassem farfalhando seus risos.
No mundo onírico, os sonhos são a única coisa que existe fielmente. As vivências dos sonhos, para muitos, são acontecimentos que ocorrem além-Terra, além-túmulo. E nas minhas veias borbulhava um quê de bem estar e um misto de curiosidade por esperar que algo pudesse acontecer sem que eu soubesse de que se trataria. Eu também esperava, apreensivo, sentado numa das cadeiras, junto a dois ou três gargalhantes, sendo que um deles era mais afobado e, portanto, chamava-me mais a atenção.
Circundavam-nos paredes róseas, fofas como gelatinas de morango, mas de coloração opaca, laticiniamente apetitosas. À frente, um enorme telão acinzentado surgia, assemelhando-se a um lençol que é estirado num varal, à espera da secagem total, num domingo matutino. Mas, como tudo que pertence ao universo fantástico dos sonhos é extremamente alheio aos padrões terrenos de normalidade, assim também o era o telão. Cinza, sim. Porém, possuía um reflexo mágico. Lembrava a face de uma televisão que há muito não é utilizada, por sua fina camada nostálgica de poeira.
Vendo que muito me incomodava a presença daqueles seres babosos que não paravam de caçoar o nada sem motivo aparente, retirei-me de perto dos desconhecidos e dirigi-me à mesa primeira, defronte ao quadro cinza. Rumando em meu destino traçado, tocava as cadeiras e muitas delas se coloriam de um azul bem semelhante ao do céu num dia de inverno. Eu apreciava o poder que possuía meus dedos que, até então, considerava singelos. Eu era um pintor que armazenava tinta na ponta dos dedos! Assim como uma pedra que rasga a película de um lago, reverberando ondulações, meus dedos pintavam as cadeiras e, a cada movimento das vagas, as cadeiras pintavam-se cada vez mais, paulatinamente. Era a minha alma expurgando os poros do salão com o meu livre contentamento azul.
Sentei-me à mesa. Amigos e colegas me cumprimentaram, visivelmente contentes de me encontrarem. Como os avós que encontram, no paraíso, o neto que faleceu. Sorri e esperei. Sobre a base, folhas de papel se amontoavam, em pilhas individuais. Questionava-me sobre o porquê de tal quantidade excessiva de folhas, mas algo logo respondeu ao meu questionamento.
Repentinamente, as folhas começaram a flutuar. Recordei-me do pássaro de penugem nova, que está aprendendo a voar, com muita calma e delicadeza. Às vezes meio capenga, movendo-se desesperadamente; outras vezes contendo-se e batendo asas com graciosidade.
Situação fantástica! Como poderia uma folha valsar entre o ar sem motor que o autentique? Como papel branco poderia ricochetear nas nuvens sem que uma força lhe impulsionasse? Magia ou cética sensaboria? Força do pensamento ou vastidão de lamentos?
Uma das minhas companheiras, vendo meu sorriso de cão apreciador de frango de padaria, sussurrou-me uma frase que me fez espantar, encantando-me. Chegou perto do meu ouvido e, pondo a mão em concha ao seu derredor, disse: “São espíritos”.
Ajeitei-me na cadeira, sem entender a exatidão de suas palavras. Àquela altura, a sala toda estava repleta de folhas brancas a bailar suas alegrias e esvoaçando o mundo com sua magnificência. Como o desconhecido desperta medos, comigo não foi diferente. Mas o medo era repleto de uma sagacidade aliviadora.
Apontou-me a tela cinzenta de reflexos fantásticos. Num segundo plano, os espíritos brincavam como crianças com bexigas coloridas. Puxavam as folhas, cujas consistências rememberavam-me véus de noivas, de tão diáfanos que eram. Para nós, que víamos o concreto, folhas de papéis possuíam vida! Para eles, era um brincar de esparramar confetes.
Assistia, absorto, os movimentos dos espíritos, pela sala. Não eram unicamente almas como nós, com aspecto físico semelhante aos nossos. Pareciam os gigantescos bonecos de Olinda, que, no carnaval, espalham a música entre os foliões. Altos e magricelos, os espíritos tinham a pele muito alva, os cabelos mui longos e uma altura considerável de aproximadamente três metros. Vestiam roupas brancas e extremamente diáfanas, que eu via dançar em seus vôos libertos da carne. Levavam coroas de papel maiores que o diâmetro de suas cabeças. Vez ou outra, elas faziam estardalhaço em seus cabelos e eu os via ajeitando-as.
Num literal piscar de olhos, encontrava-me levitando em uma sala repleta de escadas. As paredes eram almofadadas, como em uma solitária, mas recheadas de completo conforto. Eu flutuava assim como os espíritos faziam. Sentia-me como mergulhando em alto mar, com minhas roupas todas secas, entretanto. Os colegas das minhas mesas se encontravam cada um em um degrau da escada, com as mesmas roupas dos espíritos, adequadas aos seus tamanhos. Eles cantavam, em uníssono, uma cantiga-de-roda. Os espíritos, com seus ares serenos, me viam reverberar pelo cubículo. Eu possuía asas invisíveis, qual anjos renascentistas, e sentia todos os raios solares penetrando o meu ser, sentia as estrelas subindo-me os sonhos, sentia os meus dedos tocando o mão acolhedora de Deus!
Dos sonhos eu desperto e a realidade é mais cinza que o telão da saleta. O horário cintila e a vida renasce a cada despertar. Dou-me um banho acolhedor, como o filho no útero da mãe. Ressuscito os problemas diários, esperando os sonhos se revelarem em momentos extraordinários.
É assim que, na tela cinza da vida, há reflexos inimagináveis que fingimos não ver, mas que estão lá, prestes a serem observados com atenção. Quando atentos, a tela cinza da nossa existência se colore de branco, feito as vestimentas dos amigos; de azul, feito as cadeiras de nossas alegrias; de rosa, feito as paredes do sustentáculo eterno, como uma flor que desabrocha no sem-fim das galáxias.
Sonhei. E sonhei que havia, em um lugar qualquer, uma sala gigantesca de onde despontavam brancas mesas redondas e suas respectivas cadeiras. Unicamente como se fossem margaridas que brilhassem com maior esplendor, despontando em campos floridos. Envolvendo tais móveis, havia pessoas. E essas criaturas prestavam atenção em algo, ainda que muitas delas caçoassem de sabe-se lá o quê, ou que gargalhassem farfalhando seus risos.
No mundo onírico, os sonhos são a única coisa que existe fielmente. As vivências dos sonhos, para muitos, são acontecimentos que ocorrem além-Terra, além-túmulo. E nas minhas veias borbulhava um quê de bem estar e um misto de curiosidade por esperar que algo pudesse acontecer sem que eu soubesse de que se trataria. Eu também esperava, apreensivo, sentado numa das cadeiras, junto a dois ou três gargalhantes, sendo que um deles era mais afobado e, portanto, chamava-me mais a atenção.
Circundavam-nos paredes róseas, fofas como gelatinas de morango, mas de coloração opaca, laticiniamente apetitosas. À frente, um enorme telão acinzentado surgia, assemelhando-se a um lençol que é estirado num varal, à espera da secagem total, num domingo matutino. Mas, como tudo que pertence ao universo fantástico dos sonhos é extremamente alheio aos padrões terrenos de normalidade, assim também o era o telão. Cinza, sim. Porém, possuía um reflexo mágico. Lembrava a face de uma televisão que há muito não é utilizada, por sua fina camada nostálgica de poeira.
Vendo que muito me incomodava a presença daqueles seres babosos que não paravam de caçoar o nada sem motivo aparente, retirei-me de perto dos desconhecidos e dirigi-me à mesa primeira, defronte ao quadro cinza. Rumando em meu destino traçado, tocava as cadeiras e muitas delas se coloriam de um azul bem semelhante ao do céu num dia de inverno. Eu apreciava o poder que possuía meus dedos que, até então, considerava singelos. Eu era um pintor que armazenava tinta na ponta dos dedos! Assim como uma pedra que rasga a película de um lago, reverberando ondulações, meus dedos pintavam as cadeiras e, a cada movimento das vagas, as cadeiras pintavam-se cada vez mais, paulatinamente. Era a minha alma expurgando os poros do salão com o meu livre contentamento azul.
Sentei-me à mesa. Amigos e colegas me cumprimentaram, visivelmente contentes de me encontrarem. Como os avós que encontram, no paraíso, o neto que faleceu. Sorri e esperei. Sobre a base, folhas de papel se amontoavam, em pilhas individuais. Questionava-me sobre o porquê de tal quantidade excessiva de folhas, mas algo logo respondeu ao meu questionamento.
Repentinamente, as folhas começaram a flutuar. Recordei-me do pássaro de penugem nova, que está aprendendo a voar, com muita calma e delicadeza. Às vezes meio capenga, movendo-se desesperadamente; outras vezes contendo-se e batendo asas com graciosidade.
Situação fantástica! Como poderia uma folha valsar entre o ar sem motor que o autentique? Como papel branco poderia ricochetear nas nuvens sem que uma força lhe impulsionasse? Magia ou cética sensaboria? Força do pensamento ou vastidão de lamentos?
Uma das minhas companheiras, vendo meu sorriso de cão apreciador de frango de padaria, sussurrou-me uma frase que me fez espantar, encantando-me. Chegou perto do meu ouvido e, pondo a mão em concha ao seu derredor, disse: “São espíritos”.
Ajeitei-me na cadeira, sem entender a exatidão de suas palavras. Àquela altura, a sala toda estava repleta de folhas brancas a bailar suas alegrias e esvoaçando o mundo com sua magnificência. Como o desconhecido desperta medos, comigo não foi diferente. Mas o medo era repleto de uma sagacidade aliviadora.
Apontou-me a tela cinzenta de reflexos fantásticos. Num segundo plano, os espíritos brincavam como crianças com bexigas coloridas. Puxavam as folhas, cujas consistências rememberavam-me véus de noivas, de tão diáfanos que eram. Para nós, que víamos o concreto, folhas de papéis possuíam vida! Para eles, era um brincar de esparramar confetes.
Assistia, absorto, os movimentos dos espíritos, pela sala. Não eram unicamente almas como nós, com aspecto físico semelhante aos nossos. Pareciam os gigantescos bonecos de Olinda, que, no carnaval, espalham a música entre os foliões. Altos e magricelos, os espíritos tinham a pele muito alva, os cabelos mui longos e uma altura considerável de aproximadamente três metros. Vestiam roupas brancas e extremamente diáfanas, que eu via dançar em seus vôos libertos da carne. Levavam coroas de papel maiores que o diâmetro de suas cabeças. Vez ou outra, elas faziam estardalhaço em seus cabelos e eu os via ajeitando-as.
Num literal piscar de olhos, encontrava-me levitando em uma sala repleta de escadas. As paredes eram almofadadas, como em uma solitária, mas recheadas de completo conforto. Eu flutuava assim como os espíritos faziam. Sentia-me como mergulhando em alto mar, com minhas roupas todas secas, entretanto. Os colegas das minhas mesas se encontravam cada um em um degrau da escada, com as mesmas roupas dos espíritos, adequadas aos seus tamanhos. Eles cantavam, em uníssono, uma cantiga-de-roda. Os espíritos, com seus ares serenos, me viam reverberar pelo cubículo. Eu possuía asas invisíveis, qual anjos renascentistas, e sentia todos os raios solares penetrando o meu ser, sentia as estrelas subindo-me os sonhos, sentia os meus dedos tocando o mão acolhedora de Deus!
Dos sonhos eu desperto e a realidade é mais cinza que o telão da saleta. O horário cintila e a vida renasce a cada despertar. Dou-me um banho acolhedor, como o filho no útero da mãe. Ressuscito os problemas diários, esperando os sonhos se revelarem em momentos extraordinários.
É assim que, na tela cinza da vida, há reflexos inimagináveis que fingimos não ver, mas que estão lá, prestes a serem observados com atenção. Quando atentos, a tela cinza da nossa existência se colore de branco, feito as vestimentas dos amigos; de azul, feito as cadeiras de nossas alegrias; de rosa, feito as paredes do sustentáculo eterno, como uma flor que desabrocha no sem-fim das galáxias.


Grande maré de azar a minha! E maré alta, além de tudo! Como todo bom cidadão que estranhe algo sobre sua cabeça, resolvi olhar para cima, afinal, aquela sombra estava me indignando um tanto imensamente. Quando, finalmente, olhei para cima, desesperei-me tão intensamente que corri o mais rápido que pude para o meio da rua, num misto de salto em distância com atletismo, deslocando-me inteiramente da calçada e da frente do edifício no qual havia entrado a moça minutos antes. Uma moto buzinou estridentemente em minha direção, desviando, por sorte, de meu corpo. Aquele alarido ressonante me deixou ainda mais perturbado, fazendo-me cair em plena avenida movimentada e ralando as palmas das mãos – destruindo por inteiro o relógio da moça – e os joelhos.
A partir de então, um novo sentido se apossou de mim. Retirei-me do local, estuprado de tantas presenças curiosas, arrebatando as partes que se acumulavam contra mim em vontade de ver o Malloccini. As manchetes reverberariam no dia seguinte. Segui pela calçada da grande avenida cinza. Joguei no primeiro bueiro aquela trágica memória que tinha em mãos (os coelhos em reclamações, “olha a hora, olha a hora!”). Eu chegaria em casa, lavaria as mãos e os joelhos, mertiolate-los-ia, sentiria a ardência deliciosa da dor de quem vive, sentiria o sangue a duzentos por hora nas veias, deitaria na cama e dormiria com um sorriso de orelha a orelha.